
De Promessas a Desafios: O Que Aprendi Sobre a Economia Compartilhada Após Uma Década
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Quando penso em como nos deslocamos pelas cidades e pelo mundo, percebo que a história do transporte individual é também uma história de adaptação, criatividade e (mais do que nunca hoje) relações de poder mediadas por tecnologia. Gosto de enxergar essa evolução como uma linha do tempo viva, cheia de idas e vindas, partindo da escassez absoluta até a promessa — ainda não plenamente cumprida — de abundância e acesso democrático.
Volto meu olhar para um episódio marcante: a Segunda Guerra Mundial. Com o racionamento do combustível, a carona virou necessidade. O governo americano estimulava trocas e avisos nas estradas — “If you ride alone, you ride with Hitler” (“Se anda sozinho, anda com Hitler”) — para convencer as pessoas de que dividir um carro era praticamente um ato patriótico. Não era luxo, era sobrevivência: escassez pura.
Décadas antes disso, em muitas cidades do mundo, o transporte individual já surpreendia pela criatividade: as “carroças-táxi” de cidades como Rio de Janeiro e Salvador eram literalmente puxadas a cavalo, negociadas diretamente no ponto, e acessíveis apenas a quem podia pagar. Eram poucos veículos, tarifas altas, pouco acesso — quem estava fora das principais rotas, ou não tinha dinheiro, simplesmente não se locomovia. Nos anos 1960 e 1970, surgem as cooperativas de táxi no Brasil e no mundo, um avanço importante na distribuição do trabalho e dos lucros. Motoristas passaram a ter voz, podiam se autogerir e negociar melhores condições.
A relação com a escassez começa a mudar. O número de táxis ainda era limitado — pela regulação e pelo custo dos alvarás — mas a ideia de colaboração já dava seus primeiros passos e, aqui e ali, cidades inovadoras permitiam pontos de táxi comunitários, tarifários combinados, e viam economia circular florescer, porém como o número de carros seguia limitado e o serviço continuava elitizado, principalmente nas grandes cidades.
A partir dos anos 80 e 90, com incentivos governamentais e a massificação industrial, chegou o momento de ouro do carro próprio. Andar de carro próprio era sonho, conquista e diferenciação. Só que a abundância cobra seu preço: congestionamento, poluição, expansão desordenada das cidades, custos crescentes para manter um veículo que, na maior parte do tempo, fica parado.
Eis que na última década surge uma quebra de paradigma: os aplicativos de transporte. Uber, 99, Lyft e outras mudam radicalmente o setor. A posse deixa de ser pré-requisito para a mobilidade eficiente. Posso dizer — e conheço muitos na mesma situação — que passa a fazer sentido abrir mão do carro, economizar no IPVA, manutenção, garagem, combustível, e se deslocar tranquilamente por aplicativo, escolhendo opções conforme o contexto. É uma inversão revolucionária: quem antes precisava comprar, agora pode apenas usar conforme a necessidade, e com liberdade para decidir e comparar preços em tempo real. E as caronas? Antes restritas, as caronas organizadas e hoje os aplicativos de carona, como BlaBlaCar, ampliaram o acesso também, otimizando viagens e reduzindo carros vazios nas estradas. Os impactos dessa mudança são gigantescos.
O mercado brasileiro de aplicativos de transporte movimentou mais de R$ 52 bilhões em 2022 (FGV), um salto expressivo se comparado aos cerca de R$ 10 bilhões que os táxis tradicionais movimentaram em 2015. Esse crescimento impulsionou também o setor de aluguel de carros para aplicativos, com empresas como Kovi, Localiza e Unidas oferecendo modalidades flexíveis para motoristas sem veículo próprio. Em 2022, estima-se que mais de 250 mil carros alugados circularam em apps, aproximando R$ 9 bilhões movimentados apenas nesse segmento. Ou seja, não só houve uma expansão brutal do acesso, mas também uma explosão na produção de renda, emprego e impostos — e, claro, no PIB desse nicho de economia compartilhada. Muita gente que antes jamais pegava táxi agora pode escolher a corrida por aplicativo, sejam trechos curtos, viagens de madrugada ou acessos fora dos grandes centros. Há outro elemento fundamental a se colocar na equação: o impacto ambiental. Menos pessoas adquirindo carros próprios significa menor consumo de recursos naturais, menores emissões individuais e menos resíduos ao fim do ciclo dos veículos.
Quando o uso do carro é compartilhado ou racionalizado, a produção per capita de poluentes tende a cair. Claro, parte do desafio persiste: boa parte da frota ainda depende de combustíveis fósseis, e o aumento absoluto da frota de apps pode gerar congestionamento. Mas, em tese, uma cidade bem servida por aplicativos e transporte coletivo pode reduzir significativamente o número de carros inutilizados, liberando espaço público, melhorando a mobilidade e tornando o ambiente mais sustentável. Já nos Estados Unidos, o mercado de mobilidade urbana passou por uma revolução que pode ser lida em números: um setor quase totalmente dominado pelos táxis há pouco mais de uma década hoje é majoritariamente ocupado pelos apps.
Até 2012, praticamente 100% das corridas de transporte individual pago em grandes cidades eram feitas por táxis.
Eles reinavam absolutos, com circulação controlada por licenças caras (os famosos medallions), tarifas definidas pelo poder público e oferta limitada — o que dificultava atender a todas as áreas e horários. A partir de 2013, Uber, Lyft e outros começaram a ganhar espaço. Já em 2015, em cidades como Nova York, os aplicativos respondiam por 30% do mercado, enquanto os táxis caíam para 70%. O movimento ganhou força: em 2018, os apps já lideravam, com cerca de 60% contra 40% dos táxis. Em 2022, a virada é quase total — estima-se que 80% das corridas urbanas pagas nos EUA são feitas por aplicativos e somente 20% por táxis, participação que pode ser ainda maior nas metrópoles e horários de pico. Essa transformação afetou não só a preferência dos passageiros, mas toda a cadeia do setor.
O valor das licenças de táxi, que em Nova York já passaram de US$ 1 milhão, hoje chegou a cerca de US$ 100 mil, um símbolo do declínio da era dourada dos táxis tradicionais. Em paralelo, os aplicativos impulsionaram a criação de empregos flexíveis: milhões passaram a dirigir sob demanda, a qualquer horário, atraídos pela facilidade de cadastro e pelo potencial de renda extra. Esses novos players ampliaram o acesso à mobilidade: permitiram deslocamentos mais econômicos, viagens em horários e regiões antes pouco atendidas, e criaram novas dinâmicas de mercado envolvendo locadoras, seguradoras, oficinas e setores financeiros. Por outro lado, trouxeram desafios relevantes, como o aumento do tráfego, debates sobre a precarização do trabalho e a necessidade de políticas públicas para equilibrar inovação e justiça social.
E se olharmos adiante? A chegada dos carros autônomos por aplicativo — veículos sem motoristas, solicitados via plataformas e otimamente distribuídos conforme a demanda — promete revolucionar de novo o transporte. Menos carros ociosos, rotas otimizadas por inteligência artificial e, talvez, a redução ainda maior da necessidade de posse individual. Só que essa nova onda traz também questões urgentes: enquanto a eficiência e o acesso aumentam, milhares de pessoas que hoje encontram renda como motoristas podem perder essa fonte de trabalho. Será preciso pensar em alternativas de ocupação e políticas de proteção social, porque, apesar do avanço tecnológico, as relações de trabalho e poder seguem como dilema central.
Em San Francisco, o futuro do transporte já chegou: carros autônomos da Waymo e Cruise circulam sem motorista pelo centro da cidade, disponíveis por aplicativo como um Uber, mas totalmente robotizados. Passageiros solicitam a corrida pelo celular, entram no veículo e são levados ao destino sem interação humana ao volante.
Essa novidade já impacta o cotidiano: corridas geralmente mais baratas, carros disponíveis 24h e viagens com menos erros humanos. Por outro lado, surgem debates intensos sobre segurança, empregos e convivência com o trânsito complexo das grandes cidades. Acidentes e paralisações são pauta constante, assim como a discussão sobre espaço urbano e regulamentação. Em meio a isso, San Francisco se tornou laboratório mundial do transporte autônomo, antecipando mudanças que logo devem chegar a outras cidades e mostrando que inovação e desafios caminham juntos quando a tecnologia assume o volante.
Em suma, em apenas uma década, os apps de transporte mudaram o mapa da mobilidade urbana nos EUA, deslocando o eixo de poder dos táxis tradicionais para plataformas tecnológicas, em uma disputa que segue gerando impactos econômicos, sociais e regulatórios profundos. Por outro lado, surge uma questão delicada. Hoje, milhões de pessoas em todo o mundo encontram renda dirigindo para aplicativos. Se máquinas assumirem esse papel, o que acontece com esses empregos? Essa transição trará um desafio social de grandes proporções: será preciso criar alternativas de renda, políticas públicas de capacitação e reinserção, para que o avanço tecnológico não aprofunde desigualdades já existentes.
No fundo, a evolução do transporte individual — e da economia compartilhada neste setor — é uma história de troca: trocamos posse por acesso; escassez por abundância; dependência de poucos por colaboração de muitos; e, agora, enfrentamos o equilíbrio entre inovação, justiça social e sustentabilidade ambiental.
Estou convencido de que o caminho está na busca incessante pela democratização do acesso, transparência das relações de poder e compromisso real com as pessoas e com o planeta.
E você — já pensou em como se movimentar pode ser um ato de transformação coletiva?



