
Do Banco da Carona à Corrida no App – Uma Jornada na Economia Compartilhada do Transporte
18 de março de 2026Nos últimos anos, tenho percebido como os negócios de impacto deixaram de ser uma conversa restrita a especialistas e passaram a ocupar o centro das discussões sobre o futuro da economia. Porém, sempre que revisito esse tema, lembro que ele não surgiu com as agendas recentes de sustentabilidade, nem com o crescimento do ecossistema global de inovação social. A raiz desse movimento é bem mais antiga e profunda — e foi exatamente nessa origem que encontrei o ponto de virada da minha própria compreensão sobre impacto.
O marco conceitual que realmente transformou a forma como o mundo enxerga impacto nasceu com Muhammad Yunus, no Bangladesh, na década de 1970. Ao desenvolver o conceito de microcrédito e fundar o Grameen Bank, Yunus provou ao mundo que pessoas em situação de pobreza não eram “alto risco”, mas sim empreendedores em potencial, excluídos por sistemas financeiros incapazes de enxergar sua capacidade. O que mais me inspira em Yunus é que ele não apenas criou uma solução financeira; ele apresentou ao mundo o conceito de empresa social, baseada em uma lógica de sustentabilidade, propósito e autonomia econômica. Seu trabalho estruturou a ideia de que um negócio pode — e deve — ter como objetivo principal resolver um problema social, sem depender de filantropia e mantendo solidez financeira. Essa virada intelectual moldou tudo o que viria a seguir no campo do impacto.
Enquanto Yunus promovia a revolução do microcrédito no sul da Ásia, outros movimentos se desenvolviam em diferentes continentes. Nos Estados Unidos, durante os anos 1960 e 1970, emergiam as primeiras práticas de investimento socialmente responsável, impulsionadas por debates sobre direitos civis e preocupações ambientais. O ShoreBank, fundado em 1973, ecoava o espírito de Yunus ao promover desenvolvimento comunitário por meio de crédito justo. Na Europa, a tradição de cooperativismo e economia social se fortaleceu, e marcos regulatórios começaram a surgir, dando forma a uma visão madura sobre negócios que integram impacto e viabilidade econômica. Ainda assim, foi Yunus quem estabeleceu o ponto de convergência: impacto como propósito central do modelo de negócio.
Essa evolução global encontrou um catalisador importante quando, em 2005, nasceu o Impact Hub em Londres. A rede surge exatamente no momento em que o mundo começava a compreender, graças a Yunus e a outros pioneiros, a força dos negócios voltados à transformação social e ambiental. Entre esses pioneiros, destaco Bill Drayton, fundador da Ashoka, que disseminou mundialmente o conceito de empreendedor social e criou a primeira rede global de empreendedores de impacto; iniciativas como o ShoreBank, nos Estados Unidos, que estruturaram o desenvolvimento comunitário por meio de crédito responsável; e o Triodos Bank, na Holanda, referência internacional em finanças éticas e sustentáveis. Na Europa, movimentos cooperativistas centenários e a economia social já articulavam, há décadas, formas de unir propósito e sustentabilidade financeira. Ao mesmo tempo, iniciativas como o movimento Fair Trade, as primeiras estruturas de finanças éticas, redes de comércio solidário e organizações como a Social Enterprise UK ajudavam a consolidar a noção de que impacto socioeconômico podia — e deveria — ser parte central da lógica empresarial. Esses atores, junto ao trabalho revolucionário de Yunus com o Grameen Bank, formaram o alicerce intelectual e prático que permitiu que redes como o Impact Hub surgissem com propósito claro e terreno fértil para se expandirem globalmente.
A expansão global e o papel das redes de impacto
À medida que conheci melhor o movimento global, percebi que o impacto ganhou força por meio de redes, conexões e comunidades que traduziram em prática a visão de Yunus. Foi assim que os Impact Hubs se consolidaram como ecossistemas de inovação social.
Na Europa, hubs em cidades como Viena, Amsterdã, Madri e Lisboa se tornaram referência em programas de aceleração, projetos de inovação climática, iniciativas para refugiados e articulações com governos. Essas iniciativas pareciam materializar uma tese que Yunus sempre defendeu: quando as pessoas têm espaço, apoio e comunidade, elas criam soluções sustentáveis para seus próprios desafios. A atuação europeia, para mim, reforça a noção de que impacto precisa de redes multilaterais para florescer.
Na Oceania, houve um movimento semelhante. Impact Hubs em Melbourne, Sydney e Auckland se tornaram plataformas essenciais para apoiar empreendedores focados em regeneração ambiental, economia circular e inclusão de comunidades indígenas. Essa conexão entre cultura local, inovação e propósito mostra como o impacto pode assumir formas diferentes, mas sempre mantendo o núcleo da visão yunusiana: autonomia econômica como motor de transformação.
Na África, a força criativa do impacto fica evidente quando olho para o Impact Hub Accra, em Gana. Ele se transformou em uma referência continental em saúde, tecnologia e empreendedorismo jovem. Programas voltados para inclusão financeira, acesso à saúde e formação empreendedora dialogam diretamente com o legado do microcrédito: impacto como ferramenta para abrir oportunidades onde antes havia barreiras estruturais.
Algo semelhante acontece no Impact Hub Phnom Penh, no Camboja, que atua com jovens, mulheres, agricultores e comunidades rurais. Ele desenvolve soluções locais focadas em educação, tecnologias sociais, agricultura sustentável e inclusão de gênero. O que vejo nesses exemplos é a replicação contemporânea dos princípios de Yunus: soluções simples, acessíveis e profundamente conectadas às realidades locais, sempre com a crença de que ninguém está condenado à pobreza quando tem acesso a recursos adequados.
O impacto no Brasil, o papel de novos Atores
Quando olho para o Brasil, vejo um movimento que ganhou força especialmente entre 2010 e 2020, apoiado por atores que ajudaram a estruturar o campo. A Artemisiaimpulsionou empreendedores sociais em escala nacional. A Vox Capital introduziu o investimento de impacto na América Latina. A Associação Impact Hub Brasil, por sua vez, se tornou articuladora de uma grande rede que aproximou empreendedores, organizações, investidores e políticas públicas.
Para mim, o Impact Hub Brasil funciona como um ponto de convergência entre o espírito colaborativo global e a realidade brasileira. Ao conectar territórios tão distintos quanto São Paulo, Curitiba, Brasília, Manaus ou Cuiabá e Salvador, os hubs criaram espaços onde negócios de impacto puderam testar modelos, acessar metodologias, formar redes e crescer. Eles traduzem, no contexto brasileiro, a mesma essência presente no Grameen Bank: impacto nasce da união entre propósito e oportunidade.
E, dentro desse ecossistema, o Legado se destaca ao atuar diretamente na aceleração e fortalecimento de iniciativas sociais e negócios de impacto. O Legado contribui com formação, mentorias, metodologias, governança e desenho de estratégias, ajudando organizações a amadurecer e sustentar seus modelos. Ele funciona como um ponto de inflexão para empreendedores que desejam transformar propósito em operação sólida e escalável — algo que Yunus sempre afirmou ser crucial para diferenciar impacto real de boas intenções.
Adicionalmente, ao observar o desenvolvimento territorial do impacto no Brasil, considero particularmente exemplar o que acontece no Oeste do Paraná, impulsionado pela atuação estruturante da Itaipuparquetec. Em um território trinacional com elevada diversidade econômica e desafios complexos, Itaipuparquetec conseguiu integrar ciência, tecnologia, pesquisa aplicada, sustentabilidade, bioeconomia e empreendedorismo em um ecossistema híbrido, colaborativo e profundamente conectado ao desenvolvimento regional.
Sua influência vai muito além da inovação tecnológica: Itaipuparquetec promove o surgimento e amadurecimento de negócios de impacto, oferecendo formação empreendedora, incubação, aceleração, mentorias, redes de apoio e acesso a laboratórios de ponta. Atua em frentes críticas como energias renováveis, economia circular, agricultura inteligente, tecnologias ambientais, gestão hídrica, segurança alimentar e desenvolvimento rural — áreas estratégica e diretamente relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Itaipu Parquetec funciona, na prática, como um catalisador regional capaz de transformar potenciais em soluções e desafios em oportunidades. Ao articular poder público, universidades, setor privado e comunidades, cria condições reais para que iniciativas de impacto prosperem, escalem e transformem vidas. Não se trata apenas de inovação empresarial: trata-se de inovação territorial com impacto socioambiental profundo.
Essa atuação aproxima o Oeste do Paraná do que há de mais avançado no ecossistema global de impacto — e posiciona a região como um dos polos emergentes mais relevantes do país.
Ao juntar Impact Hub, Itaipu Parquetec, Legado, Artemisia e os pioneiros nacionais, percebo que o Brasil conseguiu construir um ecossistema que respeita nossa diversidade regional e, ao mesmo tempo, se conecta a práticas globais de excelência. É uma síntese que, para mim, representa a maturidade do campo no país.
O futuro do impacto e a força da colaboração global
Ao olhar para essa trajetória — dos Estados Unidos à Europa, da Oceania à África, dos Impact Hubs internacionais ao Itaipu Parquetec no Brasil — percebe-se que negócios de impacto não são apenas um setor da economia, mas um novo paradigma. Eles representam um convite para repensarmos o papel das empresas e do capital em um mundo que exige responsabilidade, colaboração e inovação profunda.
A economia colaborativa, tão alinhada a esses princípios, desempenhou um papel crucial ao mudar nossas expectativas sobre acesso, uso, compartilhamento e regeneração. Ela mostrou que valor emerge da conexão entre pessoas. E nenhum espaço incorpora isso tão bem quanto os Impact Hubs espalhados pelo mundo. Eles são, em essência, laboratórios vivos de inovação social, onde ideias se transformam em projetos, projetos se transformam em negócios e negócios se transformam em impacto sistêmico.
Hoje, sinto que estamos apenas no começo. O ecossistema amadureceu, ganhou ferramentas, ganhou densidade intelectual e ganhou uma comunidade global interligada. E, no coração dessa transformação, vejo atores como a Artemisia, o Legado, a Itaipu Parquetec, a Associação Impact Hub Brasil e os inúmeros Hubs pelo mundo criaram as bases para que mais pessoas, mais organizações e mais territórios encontrem caminhos para participar dessa nova economia.
Negócios de impacto não são apenas sobre empreender — são sobre imaginar e construir, coletivamente, um futuro que funcione para todos. E é nessa visão que encontro minha motivação diária: participar de um movimento que, ao unir propósito e inovação, consegue transformar realidades e abrir portas para novos caminhos de desenvolvimento humano, econômico e ambiental.
Yunus sempre afirmou que impacto sem método é apenas discurso. E hoje vejo esse princípio consolidado em redes como os Impact Hubs internacionais, no trabalho do Legado, na dinâmica criativa dos empreendedores brasileiros e na atuação territorial da Itaipu Parquetec.
Negócios de impacto não são só um setor da economia — são um paradigma. Representam uma nova forma de pensar desenvolvimento, inovação e futuro. São um convite para construir soluções que cuidem de pessoas, de comunidades e do planeta. E, acima de tudo, representam a combinação mais poderosa que conheço: propósito com técnica, colaboração com estratégia e inovação com transformação real.



