
Mais foco, menos distração: a experiência de trabalhar em um coworking
30/01/2026Esta jornada de comemoração de 15 anos do Impact Hub Curitiba me remeteu à alguns assuntos que me fascinavam. À época, mergulhei no conceito emergente da sharing economy, ou economia do compartilhamento. Era um tema que me fascinava a ponto de estudar horas a fio e subir em palcos e salas para ministrar palestras sobre o tema. O pano de fundo dessas conversas sempre girava em torno de dois grandes eixos: a relação entre escassez e abundância, e a disputa de poder — centralizado ou descentralizado — que emergia a partir do uso de tecnologias digitais. Além disso, pulsava forte a dimensão ambiental: como a pressão por mais sustentabilidade poderia encontrar respostas no uso mais eficiente dos recursos já existentes?
Naquela época, a promessa era sedutora. A tecnologia tornava possível conectar milhões de pessoas e, com isso, viabilizar o uso otimizado de recursos antes subutilizados. Bastava pensar em carros parados na garagem, quartos vagos, ferramentas usadas uma vez por ano. Falar em economia compartilhada era falar em uma espécie de mágica digital capaz de transformar “escassez fictícia” (ou seja, resultado do excesso de propriedade privada) em abundância verdadeira, acessível a todos.
As minhas palestras e estudos desenhavam cenários em que a abundância surgiria do próprio tecido social, organizado em redes colaborativas. Plataformas como Airbnb e Uber eram exemplos de como qualquer um poderia, com o auxílio da tecnologia, se tornar ofertante ou consumidor, invertendo antigas relações de poder e renda. O discurso não era só de renda extra, mas de acesso: morar, viajar, trabalhar, empreender — tudo mais acessível e democrático. A questão ambiental também era central: menos resíduos, menos produção desnecessária, menos pressão sobre recursos naturais.
Agora, anos depois, olho para esse cenário com mais maturidade — talvez menos deslumbramento, mas mais consciência das idiossincrasias, dos avanços e dos desafios reais. Afinal, consolidou-se essa abundância prometida? De fato, o poder ficou mais descentralizado? Ou apenas trocamos velhos intermediários por novos?
Escassez x Abundância: Da Utopia ao Confronto com a Realidade
A relação entre escassez e abundância na economia compartilhada foi vista, inicialmente, quase como uma redenção social. Técnicos, ativistas e empreendedores vibravam com o argumento de que a ociosidade seria derrotada pela inteligência coletiva. Plataformas permitiriam que mais pessoas acessassem bens, tornando supérflua a discussão sobre quem “possui” algo. A casa compartilhada do Airbnb, o carro do Uber, a furadeira do vizinho: a posse cedia espaço ao uso. Não precisaríamos de dez carros em uma rua, se pudéssemos compartilhar dois ou três.
Com o tempo, a realidade trouxe nuances importantes. Sim, houve avanços: ferramentas de economia colaborativa ampliaram o acesso a bens e serviços, principalmente para quem antes estava fora dos mercados formais. Por outro lado, surgiram efeitos colaterais. Em cidades turísticas como Lisboa ou Barcelona, o Airbnb contribuiu para encarecer aluguéis e escassear moradias para residentes locais, criando uma “nova escassez” onde antes se esperava abundância. O mesmo ocorreu com plataformas de transporte: o excesso de motoristas gerou congestionamentos e, em alguns lugares, poluição adicional, contrariando a narrativa ambiental.
Na prática, a abundância foi real, porém desigual e dependente de infraestrutura digital e de regulamentação. Cidades e mercados mais preparados colheram benefícios; outros, viveram consequências inesperadas ou negativas.
Poder Centralizado x Descentralizado: Algoritmos, Dependência, Novos Monopólios e a Indústria da Música
Se, no início, se acreditava que as plataformas digitais serviriam como “desintermediadoras”, abrindo espaço a uma verdadeira descentralização do poder econômico, a história mostrou um cenário bem mais complexo. Empresas como Uber e Airbnb rapidamente se transformaram em gigantes globais. O que prometia ser puramente “peer-to-peer” virou “platform-to-peer”: o poder de decisão, definição de preços e regras foi transferido dos antigos intermediários para algoritmos centralizados, controlados por corporações globais com pouca transparência.
Um exemplo fascinante dessa disputa por poder está na indústria da música. Antes da era digital, grandes gravadoras ditavam as regras de produção, distribuição e monetização. Quando as plataformas digitais começaram a surgir, muitos acreditaram que haveria uma ruptura definitiva desse poder: músicos poderiam finalmente se conectar diretamente com fãs, lançar suas obras independentemente e ganhar de acordo com seu sucesso real, sem depender de contratos draconianos.
De fato, houve certa democratização: qualquer artista pode, hoje, lançar suas músicas globalmente sem a chancela de uma grande gravadora. Mas, ao mesmo tempo, novos intermediários surgiram. O caso do Spotify talvez seja o mais emblemático: a plataforma revolucionou o acesso à música, mas concentra enorme poder de curadoria (playlists, algoritmos de recomendação) e na divisão dos royalties — a maior parte da renda ainda vai para as grandes gravadoras, e a maioria dos artistas independentes recebe frações de centavos por reprodução.
O Spotify (assim como Apple Music e outros serviços de streaming) tornou-se quase indispensável para o alcance de público, mas ao custo de restabelecer um novo centro de poder, desta vez tecnológico. Se antes eram os executivos de gravadora que decidiam quem tinha espaço, hoje são algoritmos e contratos de distribuição digital, na maioria das vezes pouco transparentes. O resultado? O sonho do artista totalmente independente e financeiramente sustentável ainda é a exceção, não a regra.
Ainda assim, a digitalização e a descentralização permitiram que muitos talentos regionais ou de nicho encontrassem seu público, algo praticamente impossível no modelo centralizado anterior. Existem também alternativas tentando fortalecer o poder dos criadores, como plataformas cooperativas de distribuição musical, ou iniciativas baseadas em blockchain que remuneram mais diretamente os artistas.
Assim como em outras áreas da economia compartilhada, a relação entre poder centralizado e descentralizado na música evoluiu: houve avanços inegáveis em acesso e inovação, mas com o desafio persistente de se construir modelos de governança e remuneração mais justos para todos.
Modelos Alternativos: Cooperativas Digitais e Plataformas Comunitárias
Como resposta às limitações e à centralização de poder nas grandes plataformas da economia compartilhada, surgiram em diversas partes do mundo iniciativas conhecidas como “Platform Cooperativism”, buscando retomar o controle coletivo, repartir lucros e oferecer maior transparência.
Modelos como a The Driver’s Cooperative, criada por motoristas em Nova York, e a CoopCycle, formada por cooperativas de entregadores na Europa utilizando software aberto, mostram que é possível criar alternativas em que trabalhadores são sócios e participam das decisões e dos benefícios.
O Fairbnb.coop igualmente ressignifica a ideia de hospedagem ao destinar parte das taxas a projetos comunitários. Outras soluções, como Bibliotecas de Coisas e Bancos de Tempo, refletem o potencial das trocas colaborativas, reduzindo desperdícios e incentivando a solidariedade local. No contexto brasileiro, exemplos como a Coopama, com seu aplicativo próprio de mobilidade em Manaus; o AppJusto, plataforma de delivery sem fins lucrativos criada por entregadores e comerciantes em São Paulo; e a Dínamo, cooperativa horizontal de tecnologia no Rio Grande do Sul, mostram que as alternativas não só existem como se espalham em diferentes setores. Iniciativas como o Muda Meu Mundo, conectando diretamente agricultores familiares e consumidores, e a disseminação dos Bancos de Tempo e Bibliotecas de Coisas em todo o país, apontam para um futuro em que modelos mais horizontais, autogeridos e comunitários podem ganhar espaço, promovendo relações mais justas, autonomia e impacto social positivo.
Possibilidades de Futuro
A economia compartilhada não desapareceu: está em disputa. O futuro pode ser uma mistura de grandes plataformas, regulações mais fortes, iniciativas cooperativas e soluções locais. A pressão ambiental continua impulsionando a busca por modelos mais eficientes, justos e voltados ao uso racional dos recursos. Potencial para abundância e descentralização existe — mas precisa ser estruturado com governança, participação cidadã e compromisso real com o coletivo.
À medida que iniciativas cooperativistas e comunitárias amadurecem no Brasil e no mundo, as possibilidades de futuro para modelos alternativos à economia compartilhada tradicional se multiplicam, trazendo consigo uma expectativa positiva sobre o que é possível construir coletivamente – vamos aqui batizar de Economia Compartilhada 2.0. Observa-se uma tendência crescente à hibridização de modelos: já não se trata apenas de disputar ou resistir ao domínio das grandes plataformas, mas de desenvolver redes colaborativas que aliem tecnologia aberta, governança democrática e impacto territorial à escala e profissionalismo exigidos pelo mercado contemporâneo.
Nesse ecossistema emergente, plataformas cooperativas podem evoluir muito além de nichos ou reações isoladas ao monopólio digital. Já se vislumbram sistemas interligados de cooperativas digitais, com infraestrutura compartilhada, intercâmbio de conhecimento, espaços de experimentação e ferramentas que facilitam tanto a autogestão local quanto a colaboração global. O avanço das tecnologias descentralizadas – como blockchain, plataformas federadas e modelos de código aberto – também promete ampliar a transparência, a rastreabilidade e a distribuição dos benefícios entre todos os participantes. Além disso, a crescente conscientização de consumidores e empreendedores sobre ética digital, consumo consciente e impacto social estimula um ambiente de inovação pautada por valores, não apenas pelo lucro imediato.
O protagonismo do Impact Hub Curitiba e de toda a rede Impact Hub nesse cenário pode ser decisivo. Como agente articulador, o Impact Hub já vem acumulando experiência e credibilidade na criação de programas de aceleração, formação e conexão de empreendedores sociais, negócios de impacto e organizações da sociedade civil. Nossa atuação ativa em projetos demonstra a capacidade não só de fomentar novas lideranças e incubar soluções inovadoras, mas também de fortalecer parcerias e construir pontes entre setores – característica essencial para que as alternativas ganhem escala e sustentabilidade.
O Impact Hub pode assumir uma liderança ainda maior ao impulsionar o desenvolvimento de plataformas comunitárias e cooperativas digitais, seja por meio de apoio técnico, mentoria, acesso a redes internacionais ou promoção de espaços de experimentação local, como o novo polo Casa Mueller. Seu papel como hub de inovação pode ajudar a integrar essas iniciativas em cadeias de valor mais amplas, fortalecendo o ecossistema de impacto local, gerando conhecimento aberto e formando uma base sólida para a criação de modelos que priorizem autonomia, diversidade, justiça social e prosperidade compartilhada.
Diante desse cenário, o futuro aponta para uma economia do compartilhamento mais plural, onde cooperativas digitais e plataformas comunitárias, articuladas por atores como o Impact Hub, possam assumir protagonismo e conduzir a transformação rumo a um modelo verdadeiramente democrático, colaborativo e sustentável.
Este é um assunto fascinante e não se esgota aqui. Pretendo em futuros posts detalhar alguns mercados e trazer à luz questões ainda em processo de amadurecimento. Ficou curioso(a)? Voltamos em breve!





